Fevereiro Laranja: mês de conscientização sobre leucemia felina (FeLV)

Fevereiro Laranja é um alerta para uma doença silenciosa, mas de grande impacto na saúde dos gatos: a leucemia felina (FeLV). Altamente contagiosa e ainda pouco conhecida por muitos tutores, a FeLV compromete o sistema imunológico, aumenta a suscetibilidade a infecções e pode reduzir significativamente a expectativa e a qualidade de vida dos felinos. Ao longo do mês, a campanha reforça a importância da informação, da prevenção, do diagnóstico precoce e do acompanhamento veterinário como pilares fundamentais para proteger a saúde dos gatos.
Para aprofundar o tema, a médica-veterinária, Laura Queiroz de Queiroz, aprimoranda de Clínica Médica de Pequenos Animais no Hospital Veterinário da Uniube (HVU), explica o que é a leucemia felina, como ocorre a transmissão, quais sinais merecem atenção e quais medidas podem ser adotadas no dia a dia para prevenir a doença e garantir mais longevidade e bem-estar aos felinos.
O que é a leucemia felina (FeLV) e por que essa doença é considerada um dos principais desafios da medicina felina atualmente?
Laura Queiroz: A leucemia felina é uma doença crônica, de caráter proliferativo ou degenerativo e também associada a anemia e imunossupressão, o que resulta em maior susceptibilidade do hospedeiro a desenvolver infecções oportunistas. Pode ser classificada em Infecção abortiva, Infecção progressiva e Infecção regressiva. É causada por um gammaretrovirus e pode acometer gatos domésticos e selvagens. A FeLV é considerada um desafio principalmente devido a alta densidade populacional como abrigos, gatis e residências com muitos gatos onde ocorre contato prolongado e intimo entre os animais, o que auxilia na disseminação do vírus.
Quais são as principais formas de transmissão da FeLV e por que gatos que têm acesso à rua ou convivem com outros felinos estão mais expostos ao risco?
Laura Queiroz: A transmissão pode ocorrer de forma direta e/ou indireta. Felinos possuem o costume de serem "amigáveis" ou "sociáveis" entre si, isso é uma potencial forma de disseminação da doença, pois o contato próximo e íntimo entre eles facilita a transmissão pela saliva. Esse tipo de contato ocorre entre gatos durante a amamentação, a higiene mútua e o compartilhamento de comida, água e caixas de areia. A transmissão também pode ser classificada como vertical e horizontal. Sendo a vertical, contato das gatas infectadas para seus filhotes, e horizontal entre gatos que vivem juntos ou que brigam. Animais progressivamente infectados eliminam o vírus infeccioso em fluidos corporais, incluindo saliva, secreções nasais, leite, urina e fezes. Os gatos geralmente adquirem a FeLV pela via oronasal, mas também podem ser infectados por meio de mordidas, tornando os animais que vivem nas ruas e os coabitantes mais expostos aos riscos.
Quais sinais clínicos costumam indicar a presença da leucemia felina e por que muitos casos só são diagnosticados em estágios mais avançados?
Laura Queiroz: Os sinais clínicos são inespecíficos, já que se trata de uma doença que irá causar imunossupressão nos animais acometidos, podendo ser variáveis de acordo com a resposta imunológica e a presença de infecções secundárias. Em alguns casos o animal é portador da doença por anos e só irá manifestá-la quando mais velho ou em quadros de imunossupressão. Fatores como esses citados dificultam o diagnóstico precoce quando os testes não são realizados quando os tutores adquirem seus animais. Podem ser vistos sinais como perda de peso, pelos opacos e quebradiços, febre, linfadenopatia, estomatite, anorexia, enterite, diarreia, infecções respiratórias, conjuntivite, otite, desenvolvimento de linfomas, entre outros sinais que podem se apresentar de forma isolada ou concomitantes.
Qual é a importância do diagnóstico precoce, por meio de testes específicos, e como a campanha Fevereiro Laranja contribui para ampliar essa conscientização entre os tutores?
Laura Queiroz: O diagnóstico pode ser realizado principalmente através de teste rápido ou PCR. Quando realizado de forma precoce auxilia na separação de animais positivos dos negativos, de forma que seja realizado o controle da disseminação da doença, além de trazer um olhar mais preventivo naqueles pacientes positivos, já que esses são mais susceptíveis a desenvolver infecções secundárias. A campanha tem como intuito trazer mais conhecimento sobre a doença de uma forma geral, desde sua etiologia, transmissão, sinais clínicos, diagnóstico, até as formas de controle e prevenção. Pois, os tutores são grandes aliados principalmente no controle e prevenção da doença entre os animais, juntamente com os médicos veterinários.
A FeLV tem prevenção? Como a vacinação, o manejo adequado e o acompanhamento veterinário ajudam a reduzir a incidência da doença?
Laura Queiroz: Sim, possui prevenção. É recomendado que todos os gatos sejam testados no momento da aquisição, antes da primeira vacinação contra FeLV, após possível exposição a gatos infectados ou se apresentarem sinais clínicos de doença. Além do teste, a vacinação também é uma forma de prevenção, sendo recomenda a 1ª dose com 8 semanas de idade, 2ª dose 3 a 4 semanas após a 1ª. Deve ser realizada uma dose 1 ano após a conclusão da série inicial. Podendo ser realizada revacinação a cada 2 anos para gatos com baixo risco de infecção e anualmente para gatos com maior risco, com base no estilo de vida, ambiente e estado geral de saúde. O início da imunidade protetora contra a FeLV geralmente leva de 2 a 3 semanas após a vacinação primária. Deixando claro que nenhuma vacina contra FeLV é perfeita e que a vacinação pode não proteger todos os gatos contra a infecção por FeLV. Gatos não infectados que residem em uma casa com gatos infectados com FeLV devem ser vacinados contra FeLV, mesmo que os gatos infectados estejam isolados, pois os protocolos de isolamento e higiene podem falhar. Dessa forma, animais negativos vacinados, animais positivos isolados e o acompanhamento médico veterinário semestral, são fatores que realizados de forma simultânea previnem a disseminação da doença, além de resultar em melhor qualidade de vida desses animais.
Após o diagnóstico, quais cuidados são fundamentais para garantir qualidade de vida aos gatos positivos para FeLV e qual o papel do médico-veterinário nesse acompanhamento contínuo?
Laura Queiroz: Quando o paciente recebe o diagnóstico de FeLV, devem ser adotadas medidas de controle ambiental de forma que atendam às necessidades do paciente e de todos os gatos da casa para reduzir conflitos e estresse. O que pode e deve ser realizado é a castração dos animais, pois em relação às fêmeas, podem transmitir FeLV para seus filhotes ainda no útero ou através do leite contaminado, além disso, castra-las reduz o estresse dos ciclos estrais, em relação aos machos, a castração pode reduzir comportamentos territorialistas, evitando a disseminação através de brigas e acasalamento. Uma vez que, evitar o estresse já é um fator que auxilia na qualidade de vida. Gatos infectados com FeLV devem receber consultas preventivas pelo menos a cada 6 meses para a detecção precoce de alterações em seu estado de saúde, auxiliando em melhor resposta aos tratamentos realizados, uma vez que os sinais clínicos da doença ou infecções secundárias são detectados de forma rápida, quando realizado dessa forma.
Carolina Oliveira | Universidade do Agro